Se enxerga
corpos e seus bailares tortuosos
chego no caixa da farmácia, a jovem mulher que vai somando o valor dos medicamentos me olha placidamente e diz “que cabelos lindos”. agradeço sorrindo, e ela em seguidinha pergunta: o grisalho é natural ou são mechas? uma certa incontinência facial (beijo, clara averbuck😉) me impede de frear a cara de nazaré confusa, pensando se alguma mulher se torna grisalha porque quer, com toda a carga de significados que esse cabelo traz consigo (assunto que abre o meu livro “nem toda mulher”, e tá originalmente aqui na mina bem-estar).
travamos um conversê simpático de três frases, tem cadastro, débito ou crédito, nota por email, nos cumprimentamos com uma apertadinha de olhos, bom dia pra você também.
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tava deitada sobre o tapete da fotógrafa Maria Ribeiro, barriga pra cima, olhos fechados. guiada por ela, pensava na nossa relação com o corpo quando somos mulheres.
buscava na memória como foi, quando foi que passei a achar bonitos e valorosos determinados modelos. quais formas, que partes do meu corpo aprendi a detestar, a odiar, a repugnar. e de que boa maneira sempre disseram que deveríamos nos comportar.
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fecha essas pernas
esconde esses peitos
cobre essa bunda
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aos 16 sentia vergonha das coxonas de atleta, que tentava escamotear puxando a bermuda mais pra baixo, quase um tique. o uniforme do vôlei exibia todo um time de celulites e lipedemas, décadas antes de a gente sequer saber que lipedema existe e tem este nome. sempre tinha algo errado, inadequado, feio, a ser encoberto, ocultado. nunca estava adequado. nunca estava à vontade.
querer mudar de corpo, de pele, transformar, extirpar serve a quem? a nós é que não.
quanto desse trato hostil e de pouco amor com a nossa estrutura tem a ver com violências? às vezes estão lá na infância, na adolescência e a gente nem se deu conta. as vezes se repetem, se repetem e a gente
não entendeu
não tomou conhecimento
não reconhece até hoje
violências? mas sempre disseram que era assim que as coisas eram…
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sabia que aos 48 (ou em qualquer outra época da vida que lhe aprouver😏) você pode performar numa sessão de fotos sem se sentir ridícula? ou vulnerável. ou os dois. só ir. mexer o corpo com leveza, rebolar e alongar a lombar, rodopiar confortável e livremente. à vontade. quanta coisa a gente nem sabe que sabe ou que pode fazer até fazer.
✒️ insira aqui a sua metáfora da vida preferida
esse jeito menos belicoso de se enxergar devo colocar também na conta da maturidade? que faz com que a gente não ligue mais, desista de se importar com aquela celulite que existe desde os 16 e que perseverará, a despeito da nossa procupação e dinheiro gastos em tentativas de eliminá~la?
não se importe com quem tá olhando você dançar?
não se importe com quem tá olhando.
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maria é danada, captura tudo que tenta escapar. o sorriso mei sem jeito, um momento de descuido da interpretação, a fresta por onde vaza a timidez, a parte do corpo que você nem gosta e que pareceu tão bonita, essas pequenas espontaneidades que se impõem na (nossa) desatenção quando estamos, isso mesmo, à vontade.
me senti inteirinha num ritual de paz com as formas, marcas, cicatrizes que compõem o mapa da história deste serzinho mulher, cuja existência se materializa numa ossada rechonchuda, firme, macia. e dançante, a despeito das articulações um pouco avariadas.
//esta carta: como se minha mãe estivesse comigo até nessa hora. ou como parir versões de si mesma.//
eu é que não duvido do mistério ✨✨✨
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não quero parecer mística positiva, nem faz meu estilo. dito isso, toma um clichê:
já se olhou generosamente no espelho hoje?
pois olhe-se. e nutra-se bem.
boa semana pra nóis.




Já quero o contato da fotógrafa - achei incrível!
Minha avó tinha 50 anos quando eu me apaixonei pelas veias saltadas nas mãos dela. Ela ria. Dizia ser velhice. Eu achava um charme. Unhas vermelhas, anéis e veias. Era vida passando. Quero olhar para as minhas veias que começam a saltar e pensar igual. Derrapando, mas entendendo que é vida ❤️