portas em automático
um vôo, cinco livros, clarice e o indizível do viver
separo livros para a viagem. escolho cinco deles pescados de incontáveis pilhas que não param de crescer em número e altura pela casa. abro a mala, guardo dois, ponho três na bolsa.
três livros num voo de três horas. cinco livros para uma viagem de 7 dias. esperança demencial, essa minha.
com cintos afivelados, abro clarice. fazia tempo que não lia “água viva”. talvez eu não alcance a camada profunda que sua escrita cavoca. acho tudo bonito, me emocionam algumas partes. mas entender mesmo, acho que não entendo.
“ainda tenho medo de me afastar da lógica porque caio no instintivo e no direto, e no futuro: a invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro. desde já é futuro”
ela diz justamente da desimportância de entender as coisas ou perguntar os porquês. logo pra mim que fiz dessa pergunta e da necessidade de entendimento o alimento da minha profissão. clarice me convida a só ser.
e se escrever é buscar sentido para o que (se) é, assim, essas linhas que você acaba de ler se tornam uma contradição em termos, na medida em que almejam transformar em palavras - e portanto em algum sentido - o que acabo de ler.
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viver um dia de cada vez.
existir com plenitude.
o indizível do viver.
a busca pelo não-sentido das coisas.
tenho tentado.
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“estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo.”
clarice se debate com a liberdade. busca a autodeterminação de ser, sentir e pensar, sem fazer disso algo utilitário. e, novamente, ao produzir um texto sobre reflexões insanas a partir desta leitura durante um vôo (re)estabeleço a contradição.
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livre.
e contraditória.
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assim como me ocorre, clarice eventualmente se cansava de si. “não quero mais ser eu”, e aqui intuo num sorrisinho fino que só pessoas muito perturbadas se imponham esses tormentos com velozes e furiosos pensares.
“quando nasço, fico livre. essa é a base da minha tragédia.”
como é a liberdade quando em movimento sem buscar sentido nem utilidade?
me foi sugerida esses dias a imagem de uma raiz que cresce subdividida em muitas ramificações, se embrenhando profundamente na terra, sustentando o que é.
o que está.
o que vive aparente.
(árvores são imagens frequentes dentro da minha cabeça de analogias e sinapses peculiares).
“vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. é que não sei onde me levará esta minha liberdade. não é arbitrária nem libertina. mas estou solta.”
às vezes não entendo nada de clarice. mas sinto como se ela pudesse capturar o que tem atrás do meu pensamento, o instante antes do sentido, o que só é, bruto, puro e incompreensível.
de férias de atividades utilitárias mundanas, com as pernas inundadas de mar até os joelhos ou a 10 mil pés da terra, celebro clarice.
“fantástico: o mundo por um instante é exatamente o que o meu coração pede.”



clarice é um leitura que a gente nem sempre entende, mas sente demais.
é isso, Clarice não é entender, é só sentir <3